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A última geração sem redes sociais

Ei, você, que tem mais de trinta anos. Nós fazemos parte da última geração que lembra de um mundo em que não havia redes sociais. Tudo o que veio depois, seja para o bem ou para o mal, foi impactado por algoritmos, informação fragmentada e, principalmente, muito ego. Talvez em breve iremos falar desse mundo como os velhinhos de 1950, que lembravam sua juventude no século XIX como uma ilha de estabilidade pré-guerra. Um mundo sem carros, mais lento, sem que bombas pudessem cair sobre a cabeça de um parisiense comum.

Esses dias, me peguei pensando que todo meu ensino médio foi feito sem WhatsApp, Instagram e Facebook. O Orkut, lá pelo início dos anos 2000, estava apenas começando e estava longe de ser uma ferramenta amplamente utilizada pelos jovens, como passou a ser e seguida. Eu precisava evocar na memória o rosto da guria por quem era apaixonado e aceitar que eu passaria toda as férias sem vê-lo. Ah, e claro, os professores: não havia quase nenhum caminho que nos levasse, ingênuos estudantes que éramos, a suas vidas privadas. Eu mesmo imaginava onde minha professora de química morava, em que praia meu austero coordenador de turno estava descansando ou qual era o rosto da mulher do professor de inglês – ou seria ele gay?

Com o advento das redes sociais, talvez tenhamos perdido um pouco a capacidade de fantasiar sobre o outro: quase tudo está ali, entregue e idealizado. Contemplamos rostos, viagens e comidas enquanto somos transformados em produto por complexas inteligências artificiais peritas em roubar nosso tempo, fragmentar nossa compreensão de realidade e, talvez mais do que tudo, nos fazer sentirmos sozinhos.

O mundo sem redes sociais está ficando para trás. As novas gerações não sentirão sua falta assim como nós não somos melancólicos por um mundo sem carros. Em breve o mundo analógico estará tão distante quanto a Mesopotâmia está de nós. Como diria minha falecida avó, após um longo suspiro, depois de ter passado a tarde na janela, olhando sem pressa o movimento da rua: “É a vida, não tem jeito. As coisas mudam”.



Cristiano Fretta é escritor, professor e músico.

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