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Falar sobre o quê?

Há alguns dias, tinha claro sobre o que versaria a crônica deste mês. Hoje, estarrecida pela situação de catástrofe no Estado do RS, refleti que, na verdade, necessitava retomar o que escrevi em outubro de 2023. A crônica teve o título de “Então Pare, Respire, Sinta”... Permanecemos necessitando parar, respirar, sentir e focar em esforços... Muitos de nós, antes de parar, respirar e sentir, estamos precisando agir com Sabedoria.

Desde o dia 26, 27 de abril, o RS tem recebido um volume importante de chuvas que estão ocasionando o maior desastre de Estado, conforme alguns especialistas. A abrangência territorial, a gravidade das situações, a dificuldade em chegar a alguns pontos, ilhados completamente, e estradas interrompidas são situações que ainda permanecem enquanto escrevo a crônica (3 de maio, às 21h).

Quando iríamos imaginar assistir o Centro Histórico de Porto Alegre com o volume de água que está? Imagens que ficaram na memória de quem viu as fotos ou passou pela enchente de 1941. Uma sensação de impotência e uma necessidade de colaborar no que é possível. Primeira colaboração? Só transitar em situações muito necessárias para permitir que não sejamos mais um a precisarmos de resgate. Claro que quem está trabalhando diretamente nas ações de salvamento, acolhimento e acompanhamento são muito bem-vindos.

Desde setembro de 2023, tivemos, pelo menos três desastres de diferentes magnitudes e abrangência territorial, sendo este sem precedente. Algumas notícias, inclusive, apontam que neste um ano, dez eventos extremos foram registrados. Algumas das cidades foram atingidas em muitos dos eventos e vem procurando Resistir e  Insistir... Então Pare, Respire, Sinta...

Como prevenir? Como mitigar as situações? Como auxiliar para que possamos nos Fortalecer e seguir em frente? Questões que permeiam o nosso pensamento...

Desde o ano passado, temos tentado aprender. Planos de contingência foram realizados em alguns municípios, o estado possui o seu, mas ainda conversamos pouco sobre isto a não ser em momentos de situações extremas.

Talvez esteja aí o grande problema. Permanecemos sem a cultura da promoção da vida e da prevenção diante de situações de prováveis desastres. É claro que emissão de alertas tem sido realizada através de Centros de Monitoramento e vimos, nessa situação em especial, a estratégia de sirenes, carros de autoridades pedindo a saída de pessoas de casa e orientando sobre a procura de abrigos. Também estamos vendo o uso das mídias oficiais de Bombeiros, Prefeituras, Defesa Civil. O que é essencial para não disseminarmos fakenews.

As situações de desastres provocam em nós diferentes sentimentos e ações... Como sentes este momento? Já passaste por alguma situação de desastre seja como atingido diretamente, familiar, amigo, trabalhador? Pode ser, também, que possamos compreender que formamos uma grande teia onde todos estão conectados. Sendo gaúcha, gaúcho, por exemplo, é muito possível que todos nós tenhamos algum sentimento. Bem, pessoas que tenham o mínimo de empatia. Pois há sim pessoas desconectadas afetivamente que não percebem nada e seguem na sua bolha...

Podemos, também, sentir como brasileiras e brasileiros... O sentimento de pertencimento é algo que nos conecta. Tenho visto movimentos de apoio, prece, doações de diferentes partes do país. Quantos estados e até outros países enviaram aeronaves e equipes de resgate? Quantos voluntários colocaram jipes, jet-skis, botes à disposição?

Temos sim visto uma grande rede de solidariedade... empatia... pertencimento... conexão... Isto nos torna Humanos...

Mas ainda falta uma estrada... Quando me dou conta o quanto permanecemos descuidando do nosso ambiente, percebo que os interesses privados continuam sendo a lógica, em detrimento do bem coletivo. Quando planos diretores permitem construção de prédios cada vez mais altos, diminuição dos limites para construções próximas de rios e desmatamento, só para citar alguns pontos, estamos negligenciando o lugar em que habitamos. O capitalismo selvagem ditando a condução.

Parece que somos picados pelo esquecimento... fruto da sociedade líquida, como já citei em outras crônicas. Precisamos lembrar para não repetir...

Até quando nos negaremos a entender que o Planeta está se transformando? O que mais precisamos passar para compreender isto? Parece que falar, escrever, desenhar e vivenciar processos graves como o do atual momento não está sendo efetivo...

Não são somente desastres por “força” da natureza... Será que é tão difícil de captar a mensagem? Somos parte dos desastres de diferentes formas. Cabe a nós ajudar para minimizar as consequências do que ajudamos a produzir.

O que estamos vivendo terá impacto por algumas gerações...

Emocionalmente, há fissuras que necessitaremos trabalhar para reconstruir... Podemos recuperar espaços, reorganizar territórios, mas as lembranças precisarão ser elaboradas e algumas talvez permaneçam ativas em algumas pessoas, a cada chuva, trovão, barulho um pouco diferente, poderão acionar sentimentos e desencadear processos difíceis.

As estratégias de elaboração estão desde a escuta empática, o olhar e estratégias de atuação coletivas, o apoio para a reconstrução material até o respeito à recuperação de uma foto encontrada em meio a escombros. A dimensão do sofrimento produzido por horas de espera em um local isolado, de alguém à deriva agarrada a um tronco de árvore e tantas outras cenas vistas, sentidas, vivenciadas, são inimagináveis. Apesar disto, acredito verdadeiramente que temos Potencial de Ressignificação.

Precisamos Aprender...

Para concluir a crônica que não foi tão poética quanto as que habitualmente escrevo, dia 18 de maio, além de ser o dia marcado para refletirmos sobre a o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, é considerado o Dia da Luta Antimanicomial. Em algum momento, explicarei melhor, pois nem sempre o que desejamos se manifesta como queremos... a Existência tem as suas curvas, subidas, descidas...

Neste momento, o que urge é a reflexão sobre tudo que compartilhei neste mês e, assim como o dia da luta propõe pensarmos “fora da caixa” e reforçarmos o cuidado em liberdade, que possamos nos libertar daquilo que nos aprisiona na matrix e nos impossibilita de Sermos melhores conosco e com o Planeta. Gaia tem gritado e, como a poesia profunda e verdadeira do querido Armando Severo, a chuva é lágrima da Terra.

Gaia chora e procura um novo espaço para se Curar... como nós precisamos nos Curar... da nossa prepotência, insensibilidade, ganância, orgulho, falta de empatia e pertencimento... A solidariedade se constrói não somente diante das situações de crise, mas em todo o movimento, para diminuirmos tudo o que leva até a crise...

 

Que sejamos Luz, Paz e Sabedoria!

 

Ah! Não vou deixar vocês na expectativa da poesia do Armando compartilhada no dia 1º de Maio e, autorizada a publicação, lá vai...

Revide

(Armando Severo)

 

Deságua, molha, limpa.

Encharca a pele das gentes,

cobrando o preço.

Esta chuva

é lágrima da Terra,

pedindo trégua.

  

Quem quiser colaborar com doações ou se voluntariar, pode entrar em contato com os canais oficiais dos municípios e do Estado.

 



Patricia Ziani Benite

Psicóloga e escritora

Autora dos livros Tocando o Coração - Enxergando a Alma e Em busca da Alma perdida 

Canal Youtube: Tocando o Coração Enxergando a Alma

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2 Comments


Gaia diz que a chuva são lágrimas da terra, mas a terra sempre chorará, pois enquanto homens ambiciosos só pensarem no ter e nessa devasta ganância não pensará nas consequências que todos passarão, inclusive estes que habitam aqui.

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Exatamente!! Gratidão pela reflexão.

Já passou da hora de repensarmos. Precisamos nos conscientizar, participar e cobrar dos nossos governantes, ações que levem em conta a preservação ambiental e planejamento sustentável..

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