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História da Zona Norte - Cap. 4

Em 1806, o então governador Paulo José da Silva Gama havia dado início à abertura de uma nova via de acesso à vila de Porto Alegre, substituindo uma primitiva estrada que ligava as poucas edificações que existiam entre o centro e o Rio Gravataí por um caminho mais amplo, que costeava o Guaíba. Desde logo, o trajeto passou a ser conhecido como Caminho Novo. A extensão total da via, no entanto, não chegou a ser concluída em sua gestão.

Caminho Novo em pintura de Debret.

Outro governador, Dom Diogo, em 1811, ordenou a derrubada de boa parte da mataria que costeava o rio para que a abertura do caminho fosse continuada, ligando, dessa forma, o centro de Porto Alegre às úmidas e alagadiças terras do extremo norte da cidade, num total de 4 km de obras. No entanto, a abertura da nova via também teve um interesse particular: a construção de um solar que servisse como casa de campo para o próprio Dom Diogo e para os futuros governadores.

Uma vez que a maior parte das tropas estava em campanha em virtude das disputas por fronteiras, quem abriu o Caminho Novo e edificou o solar foram presos e negros fugidos, que cumpriam suas penas como trabalhadores dos quartéis da cidade. Eles eram conhecidos como “terço das ordenanças”. Outro objetivo da construção do solar e da abertura do Caminho novo era o fomento à agricultura nas zonas rurais da cidade. Sabe-se que por ali já se plantava cana de boa qualidade, mas havia também o desejo de que também houvesse plantio principalmente de trigo, para o próprio consumo da população de Porto Alegre.

Desenho do portão do Solar pelo artista João Faria Viana, em 1940.

A casa senhorial do Solar Dom Diogo era um prédio grande e de arquitetura portuguesa, com inúmeras e largas janelas. Em sua frente, havia um belo portão de estilo barroco, enfeitado com gradis de ferro trabalhado. O amplo jardim embelezava ainda mais o local, cujo objetivo básico era o repouso, amparado no melhor conforto que havia então. Muitos outros mandatários utilizaram o local, que foi demolido por volta de 1940 em prol da industrialização da região. Situava-se no atual número 3207 da Voluntários da Pátria, e seu imponente pórtico de entrada foi objeto de vários artistas locais. Para além de casa de campo, o Solar passou a ser também residência oficial dos governadores. O último a utilizá-lo para este fim foi João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Souza Suan (1821-1824).

Porto Alegre sitiada

Com a eclosão da Revolução Farroupilha (1835-1845), a expansão da zona urbana de Porto Alegre para além do núcleo central foi travada. A capital foi tomada pelos rebeldes em 20/09/1835 e acabou voltando às mãos imperiais em 15/06/1836. No entanto, os farrapos não se deram por vencidos e lançaram três cercos à cidade, entre junho de 1836 e dezembro de 1840. O último sítio, comandado por Bento Manuel Ribeiro e David Canabarro, durou dois anos, cinco meses e 23 dias. Houve inúmeros confrontos nos acessos à cidade, tumultuando a vida dos moradores das chácaras e estâncias das zonas rurais.

O primeiro sítio dos farrapos (de junho a setembro de 1836) aconteceu em três momentos distintos. Para o primeiro ataque, o caminho utilizado foi justamente o Caminho Novo, onde os rebeldes foram barrados pelos homens do major Manuel Marques de Souza. É interessante imaginarmos o que significou um confronto armado em meio a tão bucólica paisagem à beira do rio. Também é possível inferirmos que os farrapos, antes de tal investida contra a capital, tenham se acampado nos alagadiços terrenos do atual Navegantes, para depois seguiram em direção ao Caminho Novo. Houve outras duas investidas neste primeiro sítio: uma utilizando a atual Lima e Silva, e outra por água, tendo os farrapos tentado atacar a ponta da península.

O segundo sítio (de maio de 1837 a fevereiro de 1838) utilizou o caminho do Moinhos de Vento, enquanto o terceiro (de junho de 1838 a dezembro de 1840), voltou a utilizar o Caminho Novo como via de ataque, além do Caminho Moinhos de Vento (atual 24 de Outubro), Caminho do Meio (atual Protásio Alves) e também mais ao sul, onde hoje se situa o bairro Praia de Belas. No entanto, entre o segundo e o terceiro cerco, Porto Alegre modernizou as suas trincheiras, fazendo com que os farrapos jamais conseguissem conquistar Porto Alegre novamente.

A principal consequência direta desses cercos (além, evidentemente, do medo despertado nos moradores de Porto Alegre) foi o desabastecimento da cidade. Na verdade, era necessário que as carretas conseguissem furar o bloqueio farroupilha para que os alimentos chegassem à capital. Em 1838, a Câmara proibiu a exportação de gêneros alimentícios e ordenou rígido controle na alfândega. Durante o cerco, foi impossível qualquer tipo de desenvolvimento urbano da Estrada do Passo da Areia, assim como das outras vias que chegavam a Porto Alegre. Foi também nesta éa que muitos colonos vieram a Porto Alegre e se estabeleceram nas zonas rurais como forma de fugir da Revolução Farroupilha.

Fim do cerco e a modernização da capital

Assim que o conflito terminou, em 1845, Porto Alegre começou a viver um momento de modernização e também de expansão urbana, com a derrubada das trincheiras. São edificados o Theatro São Pedro (1858), o hospital Beneficência Portuguesa (1870), abertura da Rua Nova da Praia, atual Sete de Setembro (início da década de 1860), arborização das praças da Harmonia, da Matriz, da Alfândega, do Paraíso (atual Praça XV) e da Independência (atual Argentina), além de inúmeras melhorias na saúde pública de Porto Alegre. Tratava-se de uma cidade que respirava ares mais modernos, com as antigas construções coloniais sendo paulatinamente derrubadas.

Dessa forma, a cidade se expandiu geograficamente, em forma de leque. O primeiro arrabalde a aparecer foi o de Menino Deus, por meio de caminhos abertos entre chácaras, nos anos de 1845 a 1848. Em 1853, foi inaugurada, no final da atual Getúlio Vargas, a capelinha de Menino Deus, local que daria início às comemorações a Nossa Senhora dos Navegantes.

Também as ruas que compõem a atual Azenha datam do mesmo período, tendo a inauguração do Cemitério da Santa Casa, em 1850, sido um dos grandes responsáveis pelas melhorias da região, que teve rápido crescimento.

A atual Cidade Baixa também cresceu expressivamente após a Revolução Farroupilha, por meio dos núcleos de habitações que foram surgindo ao redor das olarias, principalmente na Rua da Olaria (atual Lima e Silva). É ainda de 1845 a abertura de ruas como a da República e a Sarmento Leite.

Mais em direção à atual Zona Norte de Porto Alegre, ainda por volta de 1850, surge um núcleo habitacional que mais tarde seria conhecido como Floresta. O bairro desenvolveu-se ao longo da Estrada da Floresta (atual Cristóvão Colombo), que terminava na subida de um morro onde em 1849 havia sido construída a Casa de Saúde Bela Vista, que mais tarde foi comprada pelo Exército. A capela de São Pedro, inaugurada em 1888, também foi fundamental para o crescimento da região.

Mais para o final do século XIX, surge o atual Moinhos de Vento, que tem esse nome em virtude da presença de inúmeros moinhos que existiram pela região pelo menos desde 1818. Primeiramente, foi chamado de arraial de São Manuel e sua expansão foi motivada pela implantação de uma linha de bondes em 1893. Em 1894, houve a abertura do Prado Independência, que também ajudou no desenvolvimento do bairro. Em 1904, a construção da Hidráulica dos Moinhos de Vento e a abertura de diversas outras ruas.

A cidade crescia, portanto, na segunda metade do século XIX. E é justamente neste contexto que os principais acontecimentos que levariam ao desenvolvimento expressivo da Zona Norte de Porto Alegre iriam acontecer, como será contado no próximo episódio.


Cristiano Fretta é escritor, professor e músico.


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2 Comments


Thereza Couto
Thereza Couto
Jul 23, 2022

MUITO INTERESSANTES ,AGUARDO COM CARINHO PRÓXIMOS CAPÍTULOS.


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Obrigada, Thereza! Todo sábado temos um novo capítulo sobre a história, as origens da Zona Norte. Estamos estudando fazer mais tarde um e-book juntando todos os capítulos em um único arquivo em formato de revista. Aguarda que vem mais coisa boa por aí! 😉

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