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História da Zona Norte - Cap. 6

Em 1875, Dona Margarida Teixeira, viúva desde 1872 do desembargador Ignácio Joaquim de Paiva Freire de Andrade, transformou boa parte de suas terras em públicas, com uma condição: de que fosse construída uma igreja para sua santa de devoção, Nossa Senhora dos Navegantes. Além disso, a devota católica de origem portuguesa também estabeleceu a condição de que o resto das terras fosse utilizado para as comemorações da padroeira dos marujos. A primeira versão da capela, pronta em 1877, acabou incendiada em 1895. Imediatamente, foi construída uma nova, que também, pouco tempo depois, acabou incendiada. O atual templo, no início da Avenida Sertório, ficou pronto 1913, e é, portanto, a terceira versão.

O culto à Nossa Senhora dos Navegantes, no entanto, não surgiu quando da construção do primeiro templo, pois desde 1871 já havia em Porto Alegre a devoção. No entanto, foi em 1875 que começou a ser realizada a procissão, que, saindo do arraial de Menino Deus, trazia a imagem de Nossa Senhora dos navegantes, por via fluvial, até a zona norte. Posteriormente, a imagem foi transferida para a Igreja do Rosário, local de onde parte a procissão até hoje em dia. Aliás, a ela acabou por virar um evento religioso importante em Porto Alegre, atraindo milhares de pessoas todos anos. Em 1968, Paulo Ferreira Tavares, então com 76 anos, bisneto de Dona Margarida, ainda legando a tradição criada pela sua bisavó no século XIX, foi o condutor do iate que levou a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes. Em 1990, no entanto, a procissão fluvial acabou sendo extinta pela Capitania dos Portos, em virtude do naufrágio do Bateau Mouche em 1988. Desde então, a imagem é trazida por terra.

Após a morte de Dona Margarida, em 21 de dezembro de 1876, seu genro e juiz de paz Ângelo Ignácio Barcellos (falecido em 1902) fica responsável pelo seu inventário. A ação, cujo objetivo principal é o loteamento, é registrada no 2º Cartório de Órfãos de Porto Alegre, em janeiro de 1877. No projeto de loteamento, os eixos principais seriam em torno de trechos da rua Sertório e da Rua Frederico Mentz. No entanto, a maior parte das ruas acabou nunca saindo do papel: somente a rua São José (atual Frederico Mentz), rua Sertório, rua Stock, rua Dona Margarida, rua Comendador Tavares e rua Afonso Marques é que foram efetivamente abertas.

Outro fato responsável pelo desenvolvimento e por mais mudanças nas paisagens das velhas chácaras na zona norte de Porto Alegre foi a abertura da linha férrea entre Porto Alegre e São Leopoldo, 1871. A primeira viagem ocorreu em 1874, e a locomotiva partia de uma estação de madeira localizada na Rua da Conceição, mais ou menos onde hoje está situado o viaduto do mesmo nome. Os trilhos seguiam pelo Caminho Novo, faziam uma pequena curva à direita, no começo da Rua Sertório e envergavam à esquerda logo em seguida, em direção a São Leopoldo. É de se imaginar o que significou, em meio a paisagem tão silenciosa e bucólica que era a extrema zona norte da cidade, uma barulhenta locomotiva cortando a inóspita região nas últimas décadas do século XIX. Uma dessas marias-fumaças chamou-se, aliás, “João Sertório”. Em 1885, é inaugurada a estação de Navegantes, em frente à capela de mesmo nome, praticamente na esquina da Rua Sertório com o Caminho Novo. Tratava-se, na verdade, de uma parada para carga e descarga, sem nenhum tipo de construção senão uma pequena plataforma. Apenas no início do século XX foi construído um pequeno quiosque de madeira e um edifício de alvenaria foi construído somente em 1929.


Rua Sertório esquina com Voluntários da Pátria nos anos 30/40.


Dessa forma, o desenvolvimento do antigo arraial de Navegantes-São João está intimamente relacionado a três fatores: abertura da Rua Sertório, concluída em 1875; doação de terrenos, construção de capela e surgimento de uma tradição em torno do culto e procissão a Nossa Senhora de Navegantes, também no ano de 1875; e abertura de estrada de ferro entre Porto Alegre e São Leopoldo, iniciada em 1871. Os anos 70 do século XIX foram, portanto, fundamentais para o desenvolvimento da região. O primitivo núcleo urbano formou-se, por consequência, na Rua Sertório, nas proximidades da primeira capela de Nossa Senhora dos Navegantes, entre o que é atualmente a Voluntários da Pátria e a Rua Pernambuco. As construções eram de típica arquitetura colonial, com janelas e portas na calçada.


Primeira capela de navegantes, nos anos 1870/1880.

Observe-se um nascente núcleo urbano e os terrenos alagadiços. Acervo Ronaldo Bastos.



Cristiano Fretta é escritor, professor e músico.

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