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Pelas Ruas da Zona Norte - Mulheres das artes

Já me referi a nomes femininos aqui. Já falei de mulheres intelectuais, artistas, escritoras.

Hoje, permitam-me voltar a elas.

Dias atrás falei da Luciana de Abreu, primeiro nome feminino a uma rua em Porto Alegre, no Moinhos de Vento.

Depois falei da Prêmio Nobel de Literatura, da chilena Gabriela Mistral.

Já tinha falado de uma de nossas maiores poetas, a Lila Rippol.

Quando falei dos “von Koseritz”, falei da Carolina von Koseritz.

Começo, hoje, pela Afonsina Cardoso, repetindo algumas mulheres as artes.


RUA AFONSINA CARDOSO

CEP 91170-220

Bairro Santa Rosa de Lima

Criada pela Lei n° 4776, de 15 de setembro de 1980. Era a rua F, da Vila Nova Gleba. Rua com pavimento de pedras, em estado regular, tem entrada pela Rua Eduardo Nadruz, não tem saída, apenas uma servidão, dando acesso a outra via.

Placa: Ilustre atriz do teatro riograndense.

Nascida ainda no século XIX, falecida em 1938, foi atriz de proa de sua época, quando havia resistência nas famílias para que as filhas fossem atrizes. Começou sua carreira na capital e já fazendo sucesso foi morar em Santa Vitória do Palmar, onde seu pai tinha um jornal, destacando-se ali como atriz, diretora e propulsora das artes cênicas, na fronteira Sul do Estado. Volta a Porto Alegre e continua a atuar. Trabalha na Faculdade de Engenharia sem deixar de organizar grupos de atuadores amadores

Na Zona Norte de Porto Alegre as mulheres acabaram tendo o seu espaço. Afonsina com esta pequena rua, Lila Ripoll (poeta) com uma extensa rua, Carolina Koseritz (jornalista e escritora), Ada Vaz Cabeda (poeta e professora), Amália Aveiro (atriz); Amália Iracema \9cantora lírica); Ana Aurora do Amaral Lisboa (professora, poeta, jornalista, feminista); Angelina Gonçalves (líder classista, morta em 1950), Mery Weiss (escritora), entre outras.


RUA LILA RIPOLL

A Rua Lila Ripoll está no Bairro Sarandi, assim denominada desde 1969.

Fica entre a Avenida Baltazar de Oliveira Garcia e a Rua Zeferino Dias.

De Quaraí, veio aos 22 anos para aqui se tornar pianista, professora, jornalista e grande poeta.

Lastimável que as primeiras palavras sobre ela são sempre lembranças apenas de sua militância no PC

Ela foi ativista exemplar, é verdade, mas foi mais do que tudo uma mulher da modernidade cultural, só ler seus. poemas:


GRILO

Um grilo fere

o silêncio com seu

canto.

Fere ouvidos

fere alma

pensamento

e solidão.


Risca o vidro

da janela.

Traça desenhos

no ar. Vai

crescendo

de insistência.

Parece agulha

de vidro. Fina

lâmina cortante

abrindo sulcos

no ar.


Vai o canto

se adensando

de mistura

com a chuva

Vai o canto

se adensando

de mistura

com o vento.


Grilo e chuva

na janela.

Grilo e vento

na vidraça.


Vento e chuva,

grilo e vento

levaram meu pensamento

e o desfolharam

no ar.


(Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 196)


A Assembleia Legislativa instituiu, desde 2004, merecidamente, o Prêmio de Poesia Lila Ripoll, numa iniciativa da então deputada estadual Jussara Cony.

Lila Ripoll tem oito livros de poesia, uma peça de teatro e está presente em várias Antologias.

Ainda lembramos que Lila Ripoll colaborou no Correio do Povo, na Revista Universitária, em A Tribuna Gaúcha e editou a Revista Horizonte (1951). No Rio de Janeiro, junto com Graciliano Ramos e outros escritores, coeditou "Partidários da Paz" e colaborou com a revista A Leitura.


Carolina Von Koseritz com os filhos João e Carlos


RUA CAROLINA VON KOSERITZ

Localizada no Loteamento Nossa Senhora de Fátima, no Bairro Rubem Berta, a ilustrada professora e tradutora é mais um nome “estrangeiro” que “invadiu” o Rubem Berta.

Via de duas quadras, com pedras, com manchas asfálticas, em estado regular, ligando a Rua Antônio Francisco Lisboa e a Avenida João Ferreira Jardim.

Desde menina, começou a trabalhar com seu pai Carlos von Koseritz, jornalista e deputado, que também é nome de rua na capital.

Trabalhando desde os 12, aos 17 anos, publicou seus primeiros contos.

Foi casada com Rodolfo Brasil que acabou se mostrando um medíocre poeta e falastrão, em contradição com o espírito altivo, ousado, diante do seu tempo de Carolina. Ela o deixou no Rio, voltando a Porto Alegre, para lecionar, traduzi e escrever. Mesmo oficialmente casada juntou-se a Mário Teixeira de Sá, jornalista português, 6 anos mais jovem que ela.

Apesar do “escândalo” ela levou a relação para frente, tendo 4 filhos com ele. Mas certo dia ele sumiu daqui.

Ela, como sempre, tocou a vida e cuidou dos filhos. Mesmo muito doente.

Morreu de insuficiência renal aos 57 anos.

Foi tradutora, jornalista e escritora.


RUA LUCIANA DE ABREU

CEP - 90570-060

Bairro Moinhos de Vento

Segundo a Câmara Municipal, não tem lei que a nomine. Via que vai da Rua Eng. Álvaro Nunes Pereira a Rua 24 de Outubro. Ela é asfaltada, com pequeno trecho em pedras regulares, muito arborizada.

Na região, educadores e pessoas ligadas à cultura, foram homenageados como Hilário Ribeiro (professor e escritor), Fernando Gomes (teve o primeiro colégio privado da capital), Barão de Santo Ângelo (Manuel de Araújo Porto Alegre – intelectual), cabendo para a professora, poeta, partícipe ativa do Parthenon Literário um nome de uma das vias deste bairro nobre da cidade.

Luciana de Abreu foi uma criança colocada na Roda dos Enjeitados da Santa Casa. Nasceu em 1847 e faleceu em 1880 com apenas 33 anos incompletos, vítima de tuberculose. Adotada por uma família de um guarda-livros de classe média, tendo tido também uma convivência com sua madrinha de uma família aristocrática, que inicialmente a incentiva com seus dotes de declamadora. Mas ainda criança falou num sarau contra a escravatura, o que lhe trouxe problemas pois a família utilizava de mão de obra escrava.

Conseguiu se formar professora quando já era casada, com uma filha e grávida de seu filho. Teve estes dois. Foi ajudada e incentivada por Apeles Porto, Caldre e Fião, um dos mentores do Parthenon Literário e autor de A Divina Pastora, bem como seu padrinho Gaspar, com cuja família foi criada.

Foi poeta, professora, pioneira da luta pela emancipação das mulheres no Rio Grande do Sul. Participou do Parthenon Literário.

Num censo de 1840, 7 anos de ela nascer, havia em Porto Alegre, 1/4 da população ainda era negra; isto que de 1825 em diante houve forte imigração de alemães para cá.

Um ano após seu nascimento a Ponte de Pedra já era usada, apesar de concluída em 1854, foi construída por mão de obra escrava.

O Mercado Público Central foi entregue à cidade no período de sua vida, 1859, com utilização de mão de obra escrava.

Lembrando que a o Engenheiro Sertório utilizou mão de obra escrava na abertura da Estrada que hoje se chama Avenida Sertório.

Estes elementos devem ter levado ao processo de consciência de nossa Luciana de Abreu.

Dante de Laytano reuniu, em 1949, reuniu vários de seus poemas em três volumes, sob o nome de Preleções. Livro esgotado.

Já o escritor Benedito Saldanha lançou em 2012 o livro Luciana de Abreu


RUA MERY WEISS

Situada no Bairro Rubem Berta. Já escrevemos e falamos que é o Bairro com muitos nominativos "nada a ver" com sua formação. Mas aqui com Mery Weiss tem tudo a ver.

A rua vai da Est. Martim Félix Berta até a Rua Domênico Feoli.

Mery Weiss fez carreira literária no Correio do Povo, que tinha um Suplemento Infantil, no qual se destacou.

Em 1983, participou pela primeira vez do Projeto Autor Presente, o que se repetiu por mais de 15 anos.

Mery criou a Garatuja que deu destaque a escritores gaúchos. Vasculhando sebos e livrarias, poucos livros são encontrados, por isso é bom buscar na - www.estantevirtual.com.br

Ela é autora de vários livros infantis que foram bem acolhidos a seu tempo, os quais os (as) professores (as) poderiam pressionar os governos a tê-los reeditados e colocados ao dispor nas bibliotecas.

A poliomielite carregada desde pequena levou ela à tetraplegia, vindo a falecer em 2003 aos 66 anos incompletos.

O ex-vereador Sebastião Melo foi o propositor de seu nome a esta rua na Zona Norte.


TRAVESSA GABRIELA MISTRAL

CEP 91150-000

Bairro Passo das Pedras.

Criada pela Lei n° 3.172, de 27 de setembro de 1968. Fica na Vila Ingá. Era a Travessa 1 da época. Tem entrada pela Rua Itiberê de Moura, não tem saída. Pista de pedras irregulares.

PLACA – Poetisa chilena, Prêmio Nobel.

"Há sorrisos que não são de felicidade, mas uma forma de chorar com bondade.”

Eis uma frase lapidar da grande poeta. Gabriela era professora, poetisa e escritora. Ela veio como consulesa chilena ao Brasil e viveu no Rio de Janeiro, mas mudou-se para Petrópolis devido ao clima da cidade. Aqui, estabeleceu contato com escritores e frequentava muito a Biblioteca Municipal.

No livro da jornalista Christa Berger: Jurema Finamour – a jornalista silenciada, há uma passagem da relação entre as duas mulheres, suas buscas pela divulgação da cultura de seus países.

Para se ter uma ideia sobre a importância de Mistral para o seu país, alguns historiadores dizem que ela é venerada no Chile como Machado de Assis é aqui no Brasil. É um dos nomes mais importantes da literatura chilena, ao lado de Pablo Neruda.


Adeli Sell é professor, escritor, bacharel em Direito e diretor do ZN Jornal

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