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A Feira das Feiras



Há 68 anos, é sempre assim: praça tomada de livros e leitores. Na primeira, meu amigo Renildo, aos nove anos, levado pelo pai, estava lá. Diz que nunca faltou a uma sequer. E neste ano, vou marcar um café com ele no MARGS, sem tempo para terminar o papo.

No início, eram poucas bancas, acanhadas, depois foram aumentando em tamanho e mais e mais em número. Teve tempos que a Feira invadiu a Orla. Mas agora, ali preferem ganhar dinheiro com estacionamentos, parados, enquanto livros exigem um escritor, uma editora, uma livraria, recursos para comprar, tempo para ler e principalmente vontade de sonhar. Do outro lado do muro, tem coisas boas, mas jamais serão como os encantos da Praça da Alfândega.

A Feira não só me faz lembrar meu amigo Renildo Baldi, como falei, mas também me lembra do Olívio Dutra, presente nas aberturas e no passeio final da mesma. E ele sempre anda com sua mala de garupa e alguns livros. Somos leitores, afinal.

Ah, como se esquecer do La Porta e sua sineta, sua mágica de chamar e encantar pessoas. E me perdoem os guris, mas as gurias da Câmara Rio-grandense do Livro são meu xodó, para elas não tem idade, não tem tempo, são sempre elas “no pedaço”. A Feira precisa de gente na retaguarda, na “graxa”.

Em que lugar se junta tanta criança? Criançada vindo da comunidade, da periferia, muitas vezes sua primeira viagem de “busão” ao Centro, diante de tantos livros. O espaço da Literatura Infantil é uma dádiva, melhor ainda com sua contação de histórias.

Neste ano, os 250 anos de fundação da capital será o mote da Feira. Estarei lá para falar um pouco desta cidade, com matizes multifacetadas de etnias e culturas. Tida como açoriana, pelos 60 casais, mas é mais negra que açoriana.

Num momento, se decidiu que a Feira teria patrono. Antigos escritores/autores foram lembrados. Mas alguém que se lembra de que livro é coisa viva propôs homenagear os vivos, para que eles pudessem estar na praça, a falar com leitores.

Nesta 68ª edição, o patrono será Carlos Nejar, “autor de quase uma centena de obras, produzidas em mais de seis décadas dedicadas à literatura. Ocupante da cadeira número quatro da Academia Brasileira de Letras é reconhecido pela riqueza de seus textos, entre poesias, ensaios, contos, críticas literárias e literatura infanto-juvenil”, diz um chamado para a Feira.

Outro encanto da Feira são os sebos, onde você vai encontrar “aquele” livro que tanto procura. E os balaios? Ah, os saldos. Tem coisas que você não vai comprar, mas certamente todos vão achar seus livros por preço de quase nada.

Tem as sessões de autógrafos, e você estará lá porque tem o seu autor preferido, o amigo que lançou um livro.

Claro que a cada feira vamos ter alguma falta, um livreiro que se foi, um autor que morreu.

Neste ano, chamo a sua atenção para a nova geração de autores locais, em especial, as mulheres.

Sempre numa sexta, ao final de tarde, neste ano será no dia 28. Vá mais de uma vez, você sempre terá o que fazer, comprar, gente a encontrar, amigos a falar.


ADELI SELL é escritor, professor, bacharel em Direito e diretor do ZN Jornal

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