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ARCA DE DESEJOS POR PORTO ALEGRE

"A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la".

Gabriel Garcia Marques

Em 2022, Porto Alegre completou 250 anos de sua fundação. A briga pelo 26 de março de 1772 foi importante, como ponto inicial, pois obedeceu aos fatos históricos e também o olhar sobre a Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais que nasce, ao se apartar da mãe, Viamão.

Não fossem os cronistas, pouco saberíamos de nosso passado. Coruja nos trouxe vivências do século XIX. Achylles Porto Alegre, para alguns era saudosista, porém não nos deixa de relatar a Porto Alegre da virada do século e dos anos 20. "Eu, por assim dizer, vivo na rua. Não porque não tenha amor ao meu ninho, mas porque a rua exerce sobre os meus nervos uma curiosidade singular" nos diz ele. Depois, vieram Theodemiro Tostes, Paulo de Gouvêa e a obra de Archymedes Fortini, que deve ter uma Seleção de Crônicas em breve.

Estava um tanto quanto incomodado com a falta de escritos sobre nossa cidade, em especial sobre os 250 anos. Em boa hora, veio "ARCA DE DESEJOS POR PORTO ALEGRE", da (editora) Território das Artes, numa cuidadosa edição/organização feita pela Cátia Castilho Simon e Liana Timm. São ao todo 21 escritos que encaixo como memórias, crônicas e poesias.

Ao ler cada texto, me vinha à lembrança "As cidades invisíveis" de Ítalo Calvino, bem como "O imaginário da cidade", da saudosa Sandra Jatahy Pesavento.

"Talvez toda a questão seja saber quais palavras pronunciar, quais gestos executar, e em que ordem e ritmo (...); naquele momento todos os espaços se alteram, as alturas, as distâncias, a cidade se transfigura, torna-se cristalina, transparente como uma libélula. (...)"

É Calvino falando.

"Como uma libélula ou como um "flâneur" ou uma, melhor várias, pois são maioria as mulheres que habitam este livro sobre nossos encantos e alguns desencontros, nesta Porto Alegre de apenas dois séculos e meio, e vamos descortinando Porto Alegre, e isto é o que conta.

O mais interessante são as convergências nos escritos, alguns lugares são recorrentes, independente das palavras pronunciadas/escritas. E distante de Achylles Porto Alegre, mesmo quem veio de fora, não vê mais uma Porto Alegre de traços do Pampa, mas já uma cidade moderna, com a vida a pulsar em cada canto. Uma cidade que soube evoluir, se colocar no espelho do mundo, com o Fórum Social Mundial. Que tem seus percalços, que mostra muitas vezes a cara do racismo, da pequenez, das devastações de patrimônio e ambiental.

Lembrei-me de uma crônica icônica de Sérgio Jockyman que fala com um "interlocutor" que diz que isto que ele fala é Paris, e ele responde que é a Porto Alegre dos anos 40, com nossa Belle Époche.

No livro vemos as muitas "pontes" que narradores/as vão construindo entre um fato, um local, uma atividade e outra, com seus nexos, como foi a Ponte do Guaíba para nos ligar ao pampa.

O imaginário de Porto Alegre contado aqui nos leva a esta urbe, com seus vários ciclos. Sem esta contação, estas memórias, no futuro, seríamos órfãos de retratos ou gravuras de Porto Alegre ao chegar aos 250 anos.

São 21 textos, com uma abertura do convidado, grande crítico de artes, Jacob Klintowitz, que mora fora daqui faz anos, que nos dá a sua memória de Porto Alegre. Estão aí para seu prazer de desfrutar ainda: Alexandre Brito, Amanda Costa, Cátia Castilho Simon, Cinara Ferreira, Dio0ne Detanico, Jane Tutikian, José Eduardo Degrazia, Lenira Fleck, Liana Timm, Lilian Rocha Maria Alice Bragança, Maria Helena Weber, Mariam Pessah, Marta Leiria, Manuela Lopes Dipp, Naia Oliveira, Neli Germano, Nora Prado, Valesca de Assis.

São memórias, poesias, crônicas, uma escrita densa, rica, plural, com representação.

Leiam.



Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

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