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CONTOS DE CHUMBO

2024: 60 anos do golpe militar no Brasil. Creio que haverá eventos e debates. De minha parte, haverá. E quero retomar o tema do golpe nos textos literários.

Recebo do escritor Athos Ronaldo Miralha da Cunha seu “Contos de Chumbo”, de 2015, pela Chiado Editora.

Em quase 100 páginas, são 10 contos com a temática da ditadura.

Escritura simples, que flui bem, que cativa; às vezes, densa de assustar, como nas passagens das torturas, perseguições, mortes e exílios.

Escrever sobre os milicos torturadores e golpistas depois do 8 de janeiro é bem mais fácil, teria adrenalina no sangue na escrita, mas este livro do Athos é de quase dez anos atrás, por isso sua importância.

O primeiro texto é sobre a morte de um jornalista que corajosamente vinha denunciando a ditadura. Heitor é o nome que simboliza tantos outros e outras que, por coragem de escrever, pagaram pela vida, não sem antes de serem massacrados e desfigurados por milicos com a Banalidade do Mal no sangue (deles). E um colega seu Plinio, símbolo de tantos outros, continua na trilha da fala corajosa.

O “Encontro com o Capitão” traz o inusitado em vários pontos, como o encontro de poucos com o Capitão Lamarca, como ao final se sabe o nome do restaurante “La Marca massas e pizzas”. Uma sacada e tanto!

“Torquato Trovão” até o nome arrepia quando se começa a ler o conto.

Dois comerciários inocentes são presos por engano, são massacrados e mortos. Mas sobra a criança, Pedrinho, sempre elas as crianças, aos milhares tiradas dos pais e avós.

Trovão é morto pelos colegas pelo erro do alvo, ter matado dois inocentes.

Marli cria e menino, e eis que certo dia o jovem fala para a “mãe” que sonha com o pai que era vendedor e não militar. Bingo!

Maria Rosa mexe a schimia com sua colher de pau. Criou o filho Luiz Honório, estudante como tantos outros de seu tempo, foi levado por uma bala a repressão.  A mãe estava nas lides do fogão quando lhe comunicaram a sua morte. Neste conto, o autor atinge um clima emocionante com a simplicidade dos personagens e da vida e ao mesmo tempo relatando uma grande crueldade.

Num outro curto texto, o autor nos fala de um prefeito progressista, recebe um telefonema do amigo coronel, para que tenha tempo de zarpar para o país vizinho. Havia disto também. Alguns milicos livraram amigos. Nem todos é claro.

O texto mais tocante é “A valsa de Anita”. São anos e anos de espera pela volta do pai do exílio. Ele prometeu. Ela acreditou. E ele vaio clandestino, dançou a valsa com ela, porém na saída é pego e morto, como os dois companheiros que lhe dão guarida. Mas a mídia dá em manchete que morre uma gangue de assaltantes.

Tudo igual como nos dias de hoje, suprassumo das “fake news”.

A história da prefeita guerrilheira de volta à sua cidade e o encontro com o companheiro Silva é digno de nota, um toque especial do autor.

Um dos contos é sobre um jovem que fraquejou nas torturas e vira traidor. O final é de um brilho só.

“Memórias de um coronel” talvez seja um alerta para os dias de hoje: não acredite em militar torturador e golpista seja de que tempo for, de que patente for. Eles vão sempre nos achar comunistas e não vacilarão em nos matar.

Não poderia terminar seus contos de chumbo sem mais uma boa dose de emoção, com o conto “Os dois mosqueteiros”. A resenha deixo de lado para chamar você caro leitor a ler todos os “Contos de chumbo” do Athos.

Nos debates que faremos sobre Literatura e Ditadura, já convido de público o autor destes contos tocantes.



Adeli Sell é professor, escritor, bacharel em Direito e vereador do PT em Porto Alegre.

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