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Mobilidade urbana e tempo livre

Quem mora em grandes centros conhece o drama da “mobilidade”, em especial em ônibus atrasados e estragados como em Porto Alegre, nos trens suburbanos como em São Paulo e Rio de Janeiro, sempre apinhados de gente.

Não há “existência digna” nestas condições. Logo, a “dignidade humana” posta na Constituição é letra morta.

Quem mora longe, pegando ônibus e trem, mora mal, muitas vezes em sub-habitações, não tendo largas vezes saneamento básico algum.

Vou me ater a Porto Alegre, pois as “Notas do Sul” são emitidas daqui.

Nos primórdios, foram os bondes puxados por parelhas de burro.

E teve um momento em que ônibus disputavam passageiros com os bondes. Estávamos lá pelos anos 50 e 60. Nada era fácil, pelo contrário, já havia periferia e necessidades de deslocamentos. A vida já era dispendiosa e lenta por causa do trânsito.

As pessoas nunca vieram em primeiro lugar. Sempre vieram os interesses econômicos antes de tudo.

E foi no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 1970, que o engenheiro prefeito Telmo Thompson Flores, indicado pela ditadura, acabou com os bondes em Porto Alegre.

O propósito das cidades é servir às pessoas e não aos automóveis. Mas ele, conhecido como o “exterminador” da capital, fez o contrário, beneficiou a indústria automobilística, os magnatas do petróleo e da borracha, impondo ônibus.

Ele alardeava que faria viadutos e fez (seis ao total), os quais resolveriam o problema da mobilidade.

Foi o seu sucessor, também prefeito indicado, o economista Guilherme Socias Villela, que fez os corredores de ônibus, melhorando à época a situação.

Desde que aqui cheguei na década de 70, só vejo pessoas irritadas, sujeitos desgastados, diminuindo os nossos potenciais pessoais e de comunidade.

Somente na gestão do prefeito Olívio Dutra (1989-1992), do PT, que houve uma intervenção no sistema de transporte local. Foi uma chiadeira que ainda não terminou, porque eles não estão se rendendo. Pelo contrário, estão cada vez mais raivosos. Mesmo que todos tenham visto os avanços naquele período, quando a Cia. Carris, pública, foi considerada, por várias vezes, a melhor empresa de transporte coletivo do Brasil.

Na atual gestão, vendeu-se esta mesma Companhia Carris, uma empresa centenária, por uma ninharia. Vendida para a Viamão, uma empresa de quinta categoria.

Estamos distantes da discussão do básico dos básicos. A pauta tem que ser atualizada. Não pode ser a pauta do bonde que parou em 1970 nem a da intervenção do PT.

Temos que atualizar este debate, pois uma cidade inclusiva, para as pessoas, passa por um transporte público viável, que garanta dignidade aos usuários, com tarifa zero, com o devido financiamento.

Hoje, o transporte local é um caos. Faltam ônibus, andam lotados, vivem estragados pelas ruas.

Porto Alegre perdeu 76 mil habitantes em dez anos e o trânsito diário como o transporte de passageiros andam de mal a pior.

Estamos distantes da discussão do básico na eleição municipal que se avizinha. Se seguirmos com a pauta do século XX, certamente, colheremos resultados do passado.

Mas isso é assunto para um próximo artigo. Aqui, foram mais constatações do que novas proposições.


Adeli Sell é professor, escritor, bacharel em Direito, vereador em Porto Alegre.

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