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História da Zona Norte - Cap. 5

É inegável que o crescimento da cidade de Porto Alegre para além de seu núcleo urbano inicial, correspondente hoje ao Centro Histórico, dialoga com o contexto de expansão urbana ocorrido após o término da Revolução Farroupilha. O desenvolvimento da zona norte da cidade, dessa forma, pode ser compreendido como uma mescla entre um contexto amplo de desenvolvimentismo que se uniu a iniciativas individuais.

A região que até as primeiras décadas do século XX era conhecida como Várzea do Gravataí compreendia toda a extensão alagadiça e lamacenta que hoje é a área entre a Avenida Sertório e o Rio Gravataí, divisa entre Porto Alegre e Canoas. As chácaras eram localizadas quase todas no Caminho do Meio, junto ao rio. Os terrenos extremamente lamacentos e intransitáveis, ainda sem vias ou estradas, formavam um misto de barro e areia que alagava drasticamente com qualquer chuva. Em 1853, consta o seguinte trecho no Relatório dos Presidentes das Províncias Brasileiras:

As águas do rio Gravataí engrossadas no inverno pelas copiosas chuvas, não se podendo conter no leito natural, extravasam-se e deixam alagadas as suas margens em grande extensão.

Ainda na década de 1850, são executados os primeiros aterros na região hoje correspondente ao início da Sertório. As obras duraram anos e tiveram como objetivo principal escoar as águas que constantemente formavam enormes atoleiros e impediam que qualquer núcleo urbano se desenvolvesse. Em 1862, já são necessários reparos nas obras, situação que se fará presente durante toda a década de 1860. Até o final do século XIX, em bem verdade, são destinados inúmeros contos de réis para constantes construções de aterros e posteriores reparos na região. O local era também procurado por caçadores, conforme nos informa o jornal Mecenas, de 1895:

Sim, ilustre intendente. Porque é uma desgraça o que se vai por este município, aliás o mais feliz de todos os municípios do Estado. Aos domingos, vagabundos aos magotes, de espingarda barata ao ombro, soltam-se pela Várzea do Gravataí, pelo Partenon, morros do Caminho de Belém e sem piedade vão derrubando sabiás aos cachos.

Entre as chácaras existentes na região, uma que teve fundamental importância para o desenvolvimento da Zona Norte foi a de Margarida Teixeira de Paiva. Em 6 de Junho de 1870, esta senhora, junto a outros proprietários de chácaras da região, como o doutor João Ignácio, ofereceu terrenos à Câmara Municipal para que fosse aberta uma rua que ligasse o Caminho Novo à Estrada de Gravataí. A Câmara aprovou a proposta e concordou com a abertura de uma outra via pública também sugerida na ocasião, a Rua São José, atual Frederico Mentz. Os vereadores exigiram que ambas tivessem a largura de 80 palmos e fossem fiscalizadas pelo engenheiro municipal e o fiscal da Câmara.

Na época, o presidente da Província era o paulista João Sertório Júnior. Seu pai João Sertório (falecido em 1852), casado com Maria Jacintha Gomes, era natural de Milão, Itália. Neste relacionamento, teve os filhos Anna Eufrosina Sertório, Joanna Baptista Sertório, Maria do Carmo Sertório, José Sertório e Joaquim Sertório. No entanto, João Sertório Júnior é filho de uma outra união de seu pai, com Joaquina Justiniana Albertin. Além de João, o casal teve outros três filhos: Domingos Sertório (que viraria Major), Henrique Sertório e Galdina Sertório. Seu meio-irmão Joaquim Sertório foi uma figura proeminente na sociedade paulista, sendo um homem de muitas posses e que fez carreira na Guarda Nacional, chegando a coronel, além de ter sido vereador e colecionador. A família Sertório, portanto, foi importante e respeitada na sociedade paulista da segunda metade do século XIX. Natural de Santos, João Sertório Júnior formou-se em 1841 na Faculdade de Direito de São Paulo. Já tendo sido deputado naquele estado e no Rio Grande do Sul, foi nomeado Presidente da Província de São Pedro, cargo equivalente ao de Governador do Estado do Rio Grande do Sul, função que exerceu entre 14 de junho de 1869 e 29 de agosto de 1870, momento em que já havia sido nomeado Barão de Sertório pelo imperador Dom Pedro II.

João Sertório Júnior, o Barão de Sertório


Como governador, Sertório criou duas colônias italianas no Rio Grande do Sul: Conde D´Eu (atual Garibaldi) e Dona Izabel (atual Bento Gonçalves), além de terminar a obra do antigo Palácio de Justiça. Pois bem, foi o mesmo João Sertório que destinou a verba para a implantação das novas ruas nos terrenos de Dona Margaria e de outros proprietários, em 1870. É dessa forma que é aberto o traçado primitivo do início da atual Avenida Sertório. Vigiado por capatazes, o caminho foi construído perpendicular ao final do Caminho Novo. Em 1873, em decorrência de fortes chuvas, houve um grande alagamento, e quase toda a obra foi perdida, ficando pronta somente em 1875. Seu traçado inicial começava, como já foi dito, no início da atual Voluntários da Pátria e se perdia nos lamacentos terrenos nos entornos da atual Augusto Severo.

Fato curioso é que, quando Sertório deixou a presidência da Província, ficou registrado que o nome Rua Sertório havia sido uma sugestão da Câmara. No entanto, não existe qualquer ata que relate a resolução da escolha desse nome para o batismo da rua, que ainda estava sendo aberta ao final de seu governo. É provável que atribuir à nova via o seu próprio nome tenha sido uma auto-homenagem do próprio João Sertório Júnior. De volta a São Paulo em 1870, Sertório desempenhou a função de advogado até o final de sua vida, sendo enterrado no Cemitério da Consolação, junto a seus familiares.

Cruzando atoleiros e banhados da Várzea do Gravataí, a primitiva Rua Sertório era praticamente intransitável. Em épocas de chuvas, movimentar carros de bois pelo local era tarefa quase impossível. A região, formada por inúmeros banhados e sangas, era imensamente alagadiça e úmida. Em 1886, o Fiscal Honorário do Município escrevia no jornal republicano A Federação, dirigindo-se aos vereadores:

Há dias que me pedem para lembrar-vos um exame à Estrada ou Rua Sertório. Dizem-me que está em péssimo estado, tendo alguns trechos completamente intransitáveis. Hei de ir pessoalmente examinar esta estrada e outras que se avizinham e vos direi o que entender.

Em 1887, a Câmara autorizou 250 mil réis para consertos na Rua Sertório. Em 1888, o órgão público recebeu requerimento para aterro de uma “profunda sanga”. A situação só viria a melhorar em 1925, quando o prefeito Alberto Bins projetou sua macadamização. Em 1944, teve seu alargamento decretado para 25 metros, mediante recuo progressivo das construções.


Cristiano Fretta é escritor, professor e músico.

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