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Melo queimando POA

A notícia triste da semana é a morte de 10 pessoas e a gravidade da saúde de outras devido a um incêndio na cidade, na pousada Garoa. Enquanto uns morrem de fome, Melo só pensa em aquecer a economia do 4° distrito, incentivando a instalação de bares, cervejarias artesanais, casas de shows. Quase no mesmo pedaço da Poa em que moradores em situação de rua caminham num vai e vem diário em busca dos restos da cidade para não morrerem de fome. Para os empresários, tudo; para os pobres, nada. Para os investidores, oportunidades para ganhar. Para os pobres, falta de oportunidade para comer, morar, transitar e trabalhar pela cidade.

Fica na conta do Melo esse incêndio, que ela vai dizer para opinião pública que vai atuar rapidamente para avaliar o que ocorreu e, assim, punir os responsáveis. Não acredito: foi ele que sucateou as secretarias que deveriam estar gerenciando espaços e porto-alegrenses que dormem nas marquises, viadutos, barracas. Fica na conta dele, do Melo, um dos 5, talvez 3, mais trágicos incêndios da cidade. Cai no colo dele porque a mesma prefeitura que liberou o estabelecimento - ele é a lei - não teve o trabalho de fiscalizar se havia as mínimas condições para funcionar. Nem plano de prevenção a incêndio o local tinha. Óbvio: ali não se atende gente do Parcão, do Três Figueiras, a classe média, a camada branca, então Melo pouco se interessa. É igual aqui na escola que trabalho. Esse lugar é um campo minado: em caso de incêndio, 150 pessoas terão que se ultrapassar e se pisotear para cruzar uma porta de menos 2 metros, depois de descer 20 degraus de escadas. Extintor de incêndio? Talvez tenha uns nos galpões da prefeitura. Ano passado, por exemplo, tivemos dois episódios de ventiladores de parede que incendiaram em funcionamento, pelo fato de serem velhos demais. É triste e dramático, mas cada escola de Porto Alegre é uma boate Kiss em potencial.

Porto Alegre fez queima de estoque: terceirizaram, flexibilizaram, trouxeram parceiros e investidores, entregaram de bandeja tudo por aqui. A Orla, a Carris, as escolas, talvez o Demae, vão sendo entregues a “parceiros”. O que temos de volta, nós, o povo, além de serviços que pioram? A cidade tenta se modernizar, mas é só para quem vê de dentro das lanchas que navegam nas águas sujas do Guaíba ou da Marina do antigo Estaleiro. Quem desce do barco e atravessa a Edvaldo Pereira Paiva, vai cair no barro, no buraco do asfalto, no mato. Enfim, essa estória de tornar a máquina pública ágil é a real responsável pelo incêndio de sexta pela madrugada.

Para se ter uma ideia, o dono da pousada fez autodeclaração afirmando que o estabelecimento estava apto, portanto seguro, para receber inquilinos. Busquem no google a  Lei Complementar Municipal nº 876/2020. Malandramente, após o incêndio, ele vai à mídia e diz que o papel aceita tudo, pois a realidade pode ser outra. Concordo, então o caso não é de culpa, mas de dolo, pois se assumiu a possibilidade de haver incidentes como este no momento em que a prefeitura sabe desse fato e, mesmo assim, fecha os olhos e não fiscaliza. Para engrossar a responsabilidade, a gestão Melo paga mais de milhões de reais por ano ao empresário.

Somos a cidade da parada bonita que não passa ônibus. Linhas que somem, tarifas sociais que encolhem, oportunidades que desaparecem. Somos a cidade das placas de publicidade digitais que brotam nas ruas e distraem os motoristas. Tem manutenção para a placa, mas não tem para o preto, o pobre, a plebe, a periferia. Tem propaganda espalhada por aí como nunca. Cada placa dessas é um espelho escondido na rua que, quando meus faróis são refletidos, eu diminuo rápido a velocidade porque penso que vêm carro contra. Além de atrapalhar o motorista, cada placa dessas é um gasto que não produz absolutamente nada de positivo para as pessoas. Essas belas e modernas placas tem a função de fazer a gente esquecer o que está atrás delas: a cidade.

Cidade dos chromebooks e dos livros de empreendedorismo para crianças de 7 anos - não estou exagerando - que entulham salas de aula sem ventiladores, sem luzes funcionando integralmente, sem portas e janelas razoáveis. Tomadas soltas, ventiladores que só giram e superaquecem 5 minutos depois de ligados, lâmpadas que piscam, vidros quebrados. O Melo diria que é má gestão da direção, mas se esquece das maracutaias dentro da smed para compra de livros, computadores, impressoras 3d e tantos outros itens que não tem funcionalidade devido à falta de rh, de treinamento, de formação continuada dos professores. Passa de 100 milhões o que se gastou de dinheiro sem licitação. É um sucesso esse case da gestão 2021-2024, mas só para os setores empresariais que enriquecerem. Deram novo sentido ao tal ecossistema de empreendedorismo: mundo selvagem!

Melo entregou a cidade para a iniciativa privada, que não tem - ou muito pouco - interesse com o bem comum, com o povo. Melo esvaziou secretarias que não lhe interessam, especialmente as que atendem aos pobres e aos que necessitam do serviço público para obter o mínimo para viver. O prefeito colocou no lugar dos servidores gente da sua laia, do seu partido, do seu mundo, que sempre vê Porto Alegre de revesgueio, de lado de rosto, bem como nos olha o Melo. Gente que não olha na cara do povão porque está comprometida apenas com uma coisa: se reeleger para seguir arrancando dinheiro dos cofres públicos. Agora a gente queima dinheiro, queima óleo em ônibus velho, queima futuros de gente hoje sem perspectiva, queima no sol de ruas sem árvores, queima aparelho doméstico a cada temporalzinho, queima, inclusive, gente. Melo é nosso Nero.


Fábio P. Franco - professor de Geografia da rede municipal de Porto Alegre

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