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O DESBUNDE DO SOUTH SUMMIT


Foto: Lauro Alves | Agência RBS

Nos anos 70, o movimento do “desbunde” propunha buscar um pensamento alternativo ao sufocante contexto político e social da ditadura.

Hoje em dia, “desbunde” é puro deslumbramento.

Com paciência – nem tudo é Reels, nem tudo é Tik Tok, o mundo é muito diferente – sigam-nos.


O ChatGPT

É a palavra do momento, é o “case” (caso) da hora. Não precisa ir ao South Summit em Porto Alegre, ouvir 700 “speakers” (palestrantes, esqueceram-se desta palavra velha), para saber dos “milagres” do ChatGPT. E não precisa pagar uma fortuna para saber.

“Chat” – é a forma de comunicação à distância, com utilização de computadores ligados à internet, na qual o que se digita no teclado de um deles aparece em tempo real no vídeo de todos os participantes do bate-papo. Reza a pesquisa do Senhor Salvador Google.

Mas é algo mais complexo do que diz o “velho” verbete dado pelo Google.

Pode ser voz, sinais, design.

Afinal, o que é o ChatGPT?

Mais uma vez, a “busca” resolve (?):

- Desenvolvido pela startup OpenAI, criada por Elon Musk, inteligência artificial é capaz de se assemelhar à linguagem humana e tem levantado debates sobre seu uso.

“Criada por Elon Mask”. Ora, não foi ele, foi uma empresa dele, por desenvolvedores.

Vindo dele, qual o seu sentimento? De conforto ou de dúvida?

Minha sensação é de dúvidas e pavor. Pois, o foco deste sujeito é “ganhar dinheiro” de qualquer jeito, custe o que custar. Não está em seu radar o ser humano. Logo, não simpatizo, tenho aversão, apesar de achar necessário o desenvolvimento das tecnologias digitais. E até da I.A. Mas teremos controle sobre tudo isso?

Não sou ludista, não vou quebrar meu telefone inteligente.

E o que é a I.A.?

Para tudo, tem respostas. Aqui, uma delas:

A inteligência artificial é um ramo das ciências da computação que busca construir mecanismos, físicos ou digitais, que simulem (?) a capacidade humana de pensar e de tomar decisões.

Para o criador do termo, John McCarthy, a definição de IA é “a ciência e engenharia de produzir sistemas inteligentes”.

O ser humano pensa mais que uma máquina!

Se há um medo generalizado de que máquinas poderão pensar mais que humanos, temos a convicção de que haverá um humano (gente) que pensa mais do que quaisquer máquinas.

Conheço um deles: Eugênio Bucci

Quando jovens, tanto ele como eu fomos da tendência estudantil Liberdade e Luta. Nós continuamos a pensar.

Ele é um grande jornalista, citado por Natália Viana em artigo sobre o ChatGPT que diz:

No seu livro A Superindústria do Imaginário, o professor Eugênio Bucci (que é conselheiro da Agência Pública) chama a gratificação instantânea provida pelas plataformas de “valor de gozo”, e nos provoca a pensar como internalizamos “a indistinção entre divertimento e trabalho”, a ponto de nos “alegrarmos” em tomar parte da linha de montagem superindustrial do valor de gozo. “O tal ‘usuário’ se diverte, acha que o ‘entretenimento’ que lhe oferecem é um presente, e trabalha até não mais poder”, tornando-se de uma só vez, mão-de-obra, matéria-prima e mercadoria. “Nunca o capitalismo desenhou um modelo de negócio tão perverso, tão acumulador e tão desumano”, escreve Eugênio.

Pois a autora do escrito vai além e diz que “lendo sobre o ChatGPT, encontrei o excelente conceito de Enshitification, ou “amerdalhamento” ou ainda “bostificação”, como preferirem, pois acho que sou a primeira pessoa a traduzir esse conceito criado pelo intelectual canadense e ativista da internet livre Cory Doctorow para descrever o negócio das Big Techs mais disruptivas”.

Bucci conhece outro: Cory Doctorow

É dele como vimos acima o termo “bostificação” “enshitification”.

Ele nos ensina que as plataformas “são boas para seus usuários; depois, elas abusam do usuário para fazer as coisas melhores para seus clientes comerciais; finalmente, elas abusam dos clientes comerciais para extrair todo o valor para si mesmas”.

Espero que você já saiba que trabalha de graça - e ainda acha graça - para Facebook, Google, Uber, Amazon, ou ChatGPT. Essas empresas conseguem extrair valor, ou seja, mais-valia, mesmo que você se faça de posta, durma na “siesta”, pois seu telefone inteligente não dorme no ponto.

Falou e está falado.

Esta é a tal de “Enshitification” ou num bom português “bostificação”.

Achou “pesado”?

Pirulito leve e doce só no “Doces do Alemão”. Ou nas Americanas, se ainda tiverem crédito. Como vimos pelo texto do professor Bucci, é mais ou menos assim: eles te mandam “chupar um prego” e você tem gozo.

Achou “grosseiro”?

“Grosseiro” é o que fazem com a gente 24 horas por dia, só tendo um celular inteligente ligado. Se você colocar a despertar às 6 horass da manhã, a I.A. vai fazer algumas buscas algoritméticas e vai mostrar que a Confeitaria Matheus, a mais perto de você, é mais sonolenta e só abre às 7h30min. Estamos em Porto Alegre, não em São Paulo.

Achou tudo muito “duvidoso”?

Você também não achou a “legal design” duvidosa, não foi? Achava que ia pegar. Acreditou no Metaverso, certo? Mas o que ele deu a você até agora? Você continua usando Zoom, Meet e outros.

Não leu “Capitalismo de Vigilância”

Você ficou lendo tudo nas notas do Google, aí pesquisou “legal design” e “Metaverso” e não teve mais tempo para ler outras coisas.

Afirmo que perdeu tempo, deixando de ler e saber o quanto estamos submetidos ao “Capitalismo de Vigilância”.


SOUTH SUMMIT É OU NÃO É UM DESBUNDE?

O homem, na sua ansiedade de refutar a evidência de que é um macaco, reforça a crença de que é um burro. - G. Lieberman

Traduzindo “South Summit” em nossa língua, é um “encontro” do Sul. Ou seja, “South Summit” é uma marca. Tem adesão porque já tem nome e aderência.

Antes que alguém reclame, eu acho que é louvável a gente ter o evento aqui em Porto Alegre.

Sei que é agregador. Mas não é tudo o que se fala.

MÍDIA IDIOTIZANTE

A mídia local em vez de colocar seus quadros da área junto com os apresentadores e entrevistadores ficam falando de 700 “speakers”.

Nós estamos no Brasil e isto NÃO É BAIRRISMO.

Falam de números como se as coisas se dessem por geração espontânea, caíssem do céu azul de brigadeiro na orla.

Nada se fala do Tecnopuc, do Centro da UFRGS, da Feevale da Unisinos, da UFSM, dos Institutos Federais.

Não haveria “startups” sem as Universidades. Haveria meia dúzia.

Não se vincula, com raras exceções, com a Educação Informacional, com a Literacia Digital.

Além de omissa, precária, duvidosa, a mídia é idiotizante.

PARADA NAS PESQUISAS I.A.

ChatGPT, WhatssApp, Tinder, Facebook, Google, Instagram e tudo é importante, mas não é tudo. Não somos ludistas, logo não vamos quebrar nossos fones, repetindo, para não acharem que são contra a tecnologia. Somos contra o engodo.

A péssima novela da Globo, Travessia, consegue ser mais realista e sem desbunde: trata com rigor o tem de um menino adicto às tecnologias. É doença, é vício, tem que curar. Burrice, desbunde e tergiversações devem ser encaradas também.

ECOSSISTEMA?

Palavrinha que pouco diz, mas vamos lá.

Não ouvi papos sobre a aplicação da LGPD, de sustentabilidade, nada do tripé ESG.

Tem uma aba no site dizendo ECOSSISTEMA: só publicidade, na real.

Eu diria que falta (quase) tudo dos princípios ESG – Ambiente, social e governança nesta efeméride de badalação.

“Garrafinha verde de plástico degradável” é o foco dado pela mídia. Me poupem. Que pobreza.

Em termos sociais, o que fica para a cidade? Perguntar não ofende, né? Quantos ingressos para nossas escolas de graça? E o que resta para a cidade, para o poder público? Patinetes e dirigível para deleite?

Me poupem!

PÚBLICO

Antes do evento, falava-se em 20 mil participantes. Agora, seriam 14 mil. 99 países.

3 dias!

O primeiro Fórum Social Mundial teve 117 países e 20 mil pessoas.

O segundo teve mais de 50 mil de 123 países.

Pergunto: Passados mais de 20 anos e não vejo comparações. Por que será?

Economia, economia digital e criativa, eventos sociais, debates de ideias, cultura, turismo, tudo agrega valores, marca nossa cidade pelo mundo. Não se duvida disso.

É hora de falar VERDADES, louvar o evento sim, mas NÃO CAIR NO DESBUNDE.

O real é que, na atualidade, é preciso esconder verdades, maquiar tudo, vender ilusões, mentir, tergiversar.

Posso ser atacado e serei. Daqui pouco mais, vão me dar razão. Sem presunção!.


ACABARAM COM A CIENTEC, QUASE SE FOI O CEITEC E NOS EMPULHAM COM O “SOUTH SUMMIT”.

É tão fácil enganar-se a si mesmo sem o perceber, como é difícil enganar os outros sem que o percebam. - François La Rochefoucauld

Enquanto o dia fosse de “EPA, PAREMOS ESTE NEGÓCIO DE I.A” ou um avatar destes vai nos trucidar, os “speakers” estavam no Embarcadero e Orla deitando o verbo.

O Valor Econômico se pergunta “Por que Elon Musk e outros figurões querem uma pausa em tecnologias como a do ChatGPT” (sem colocar a interrogação, isto é a mídia de hoje).

Alguém acredita na “boa vontade” de Elon Musk? Ou ele quer uma parada dos outros e voltar por cima?

CIENTEC

O Instituto Tecnológico de Pesquisa do Rio Grande do Sul (Iters) foi fundado em 1942 na UFRGS, foi transformado em fundação, a Cientec, em 1972. Lá se vão 80 e 50 anos.

Por decisão do governo do Estado do Rio Grande do Sul, após votação na Assembleia, o CIENTEC foi completamente extinto em 30 de maio de 2018.

Ou seja, o Rio Grande do Sul fecha seu Centro Tecnológico e recebe na capital um evento, ao qual não nos opomos, mas é o tipo da efeméride que gerou um “desbunde” geral por aqui, sem ter uma resposta às nossas reais demandas.

CEITEC

Única fábrica de chips e semicondutores abaixo da linha do Equador; e o governo do Inominável botou à venda. Ainda bem que o governo Lula trancou esta maldade.

O Ceitec custa um centésimo do que o Governo Federal gastava (quando tentou fechá-la) com subsídios para locadoras de veículos como a Localiza, do Salim!

MAQUIAGEM

Uma rede local de TV mostrou como acontecem as consultas online com médicos. Me poupem. Não precisamos de South Summit, eu mesmo fiz e minha mãe com 88 também. Ridículo exemplo.

Já falei da maquiagem ESG; e para mim as garrafinhas de água não passam de “greenwashing”. Me poupem.

ACIDENTES PODEM ACONTECER – MAS O SOUTH SUMMIT NEM DEBATEU ESTE DILEMA!

Máquinas estão evoluindo, fazem coisas que até o santo duvida, mas alguém é proprietário delas e dos sistemas, exemplo o carro da Tessla sem motorista e o robô interno. Havendo um acidente, como já houve, não vamos processar uma máquina, será o responsável por ela que tem nome, CPF, maiormente CNPJ.

Alguém pensou nisto no por do sol do Guaíba nestes três dias de South Summit?

NENHUM DEBATE JURIDICO NO SOTH SUMIT

Qual o debate sobre o compliance na área informacional? Que debate sobre aplicação da LGPD?

E O DEBATE ÉTICO?

Onde ficaram que não vi nem ouvi debates sobre os limites éticos da tecnologia e da I.A.?

Me poupem.

O South Summit foi um desbunde. Entrou quem pagou 800 pratas. Almoçou ou jantou no Embarcadero quem tinha dólares.

E O MESQUITA? E O CESSMAR?

“Avenida do Forte” existe. Está lá a Escola Mesquita, ensina o que emprega o povo. Ou não existe mais a mecatrônica?

No “Timbaúva”, no Bairro Mário Quintana, os maristas fazem chover para cima, fazendo recomposição de computadores e fazem robótica.

E AS MENINAS DA LOMBA?

Vinte meninas entre 7 e 16 anos foram agraciadas com uma das seis menções do prêmio nacional do Desafio Liga Jovem, evento de startups no Bossa Summit, em São Paulo. Na amostra, elas apresentaram um kit de saúde menstrual criado em oficinas conduzidas por professoras.

ESQUECERAM DA ESCOLA PAROBÉ

Alguém destes desbundados, deslumbrados viu ou conhece o que acabo de falar? Foram ver o que restou de tecnologia na icônica Escola Parobé?

Estamos diante de um grupo de “colonizados”!

MAIS UMA DA MÍDIA

Uma TV local entrevista um representante da CUFA sobre em evento que vai ter em setembro. Nada acerca do trabalho que fazem de fato. Além disso, para dar uma maquiada, falaram do “empreendedorismo de favela”, como números que nada dizem.

NINGUÉM ME ATACOU

Quando comecei a fazer postagens sobre o tema, pensei que me atirassem pedras. Até aqui, as pessoas estão concordando com o “desbunde” do evento.

NOTA – Este texto é fruto de três esparsos para acompanhar dia a dia o evento. E o debate vai continuar depois desta efeméride desbundante.


ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.


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