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Pitacos da Semana



Vergonha

Certa vez, eu fazia um show em um recreio de uma escola. Eu e meus colegas nos apresentávamos para aproxamente 500 jovens, em uma “sexta cultural”, ou algo do gênero. Eu cantava a música “Bete Balanço”, do Cazuza. Em um dos versos, me deu um branco total. Eu simplesmente esqueci a letra que deveria cantar em 5 segundos. Resolvi confiar na minha improvisação. O que saiu da minha boca e foi reverberado para todo o imenso pátio foi um amontoado de cacofonias e coisas desconexas. Lembro de ter olhado para o chão e ter me arrependido profundamente por não ter simplesmente ficado em silêncio. Quando voltei para a sala de aula, após o recreio, todos os alunos tiravam sarro da minha cara. Fiquei chateado. De verdade. Eu fico imaginando que tipo de desvio de caráter eu teria que ter para convocar dezenas de embaixadores e, na cara de pau, dizer que as eleições brasileiras não são confiáveis. É como se eu tivesse sustentado que a música de Cazuza é sim um amontoado de cacofonias e coisas desconexas.

Indignações

Cresci ouvindo dizer que Porto Alegre era uma cidade politizada, leitora, europeia. O último adjetivo é ridículo, presunçoso e preconceituoso. Afinal de contas, sendo europeus, não seríamos típicos brasileiros. Nós, porto-alegrenses, seríamos mais “evoluídos” culturalmente. Sei lá o que isso significa, mas não concordo. Pois essa é a mesma cidade que simplesmente não fez nada para impedir que a especulação imobiliária derrubasse a casa em que viveu um dos maiores escritores brasileiros do século XX: Caio Fernando Abreu. Chega a doer ver as ruínas do imóvel, no bairro Menino Deus. Nesta última semana, as estátuas de Drummond e Mário Quintana foram vandalizadas, na Praça da Alfândega. Vi muito mais pessoas indignadas com a tinta amarela sobre as estátuas do que com a casa derrubada. É claro que não há como comparar, mas é muito mais fácil nos indignarmos com o vandalismo anônimo e “pobre” da tinta do que considerar a destruição de uma casa também um ato de vandalismo. Quando o vandalismo é patrocinado pelo capital, deixa de ser vandalismo e vira “inovação”. O que podemos fazer? Por enquanto, limpar as estátuas e ler Caio Fernando Abreu, Drummond e Mário Quintana.

Tá quente

Está muito quente na Europa. Quente mesmo. Muitos dirão, naquele nosso bairrismo típico, que os europeus não têm do que reclamar, que calor mesmo é a Voluntários da Pátria em um dia 10 de janeiro em meio ao asfalto do ônibus e dos mais diversos cheiros corpóreos. Não: os europeus têm muito do que reclamar. É um calor completamente atípico, atingindo cidades que não têm estrutura adequada para lidar com temperaturas que passam dos 40º C. É ele: o aquecimento global. Como o filme Não olhe para cima bem demonstrou, muitos só acreditam na ciência quando ela está à nossa frente, sentida na pele. No caso do filme, a verdade se revelou a todos quando o mundo pôde ver o cometa no céu, indo em rota de colisão com a Terra. Aqui, fora da ficção, o calor imensurável na Europa é um sinal de que, sim, a Ciência está certa, e de que o cometa também está vindo em nossa direção.

Ditado

Errar é humano, mas persistir no erro é reeleição.

Aliás

Muito estranho o suposto suicídio de Sérgio Ricardo Faustino Batista, diretor de Controles Internos e Integridade da Caixa.

Cristiano Fretta é escritor, professor e músico.

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